Há uma forma de violência bastante comum em processos de violência doméstica quando há filhos envolvidos: aquela que acontece quando uma mulher tenta proteger o filho e é punida por isso.
São histórias que escuto com demasiada frequência em consulta. Mulheres que denunciam um ambiente de medo, de tensão, de manipulação emocional. Que relatam comportamentos desadequados do outro progenitor, ou reações preocupantes da criança. Que pedem ajuda, esperando que o sistema as ajude a proteger. Não tanto a si mesmas, mas que as ajudem a proteger os seus filhos.
E é aí que, tantas vezes, começa uma nova dor, uma nova violência.
A resposta de quem deveria proteger nem sempre é de escuta. Pedem "provas concretas", como se o medo, a ansiedade, as mudanças súbitas no comportamento da criança ou no seu humor não fossem já sinais suficientes.
Em tribunal, muitas vezes, o foco continua a ser o "direito de parentalidade" e não o direito da criança ao bem-estar e à segurança. Em nome de um suposto "superior interesse da criança" forçam-se convívios com agressores, comprometendo o desenvolvimento emocional e físico dessa mesma criança.
A mãe que alerta é "conflituosa".
A mãe que resiste é "alienadora".
A que se cala sente culpa, e um dia mais tarde haverá os que lhe apontam o dedo porque "como pôde não fazer nada pelos filhos?". A que fala, perde a confiança no sistema: "teria sido melhor não fazer nada?".
Em escolas e outras instituições há quem prefira não se envolver:
"Mas o pai parece tão calmo"
"A criança até gosta dele, não será exagero?"
"Nunca lhe bateu, pelo contrário, é sempre muito carinhoso"
O agressor, muitas vezes, mantém uma imagem social positiva, encantadora. Sabe como se mostrar. E a mulher, isolada, começa a perder apoios.
Amizades que se perdem. Familiares que hesitam.
Há um cansaço no ar. Um desconforto com quem insiste em denunciar o que outros preferiam não ver.
Esta é a revitimização institucional e social. Não tem marcas no corpo, mas corrói por dentro. Faz com que mulheres duvidem de si mesmas, do que viveram, e até do que os filhos sentem.
"Já não sei se sou eu que não estou a ver bem as coisas"
"Dizem que ele é bom pai"
"O meu filho tem medo, mas não tenho como provar"
Então... o que podemos fazer para contrariar esta revitimização?
- Validar a experiência da vítima, mesmo quando o sistema não o faz. A escuta já é um ato de proteção e de caminho para a cura, para a reconstrução.
- Trabalhar em rede. Procurar apoio junto de profissionais especializados. Psicólogos, associações, grupos terapêuticos. Ouvir mulheres que experienciaram vivências semelhantes pode ajudar a construir resiliência e pode trazer alguma clareza e paz.
- Registar e documentar comportamentos e mudanças na criança. Mesmo que não haja provas "visíveis", o padrão é muitas vezes o que conta.
- Formar instituições para saberem escutar melhor e lidar com as particularidades que os casos de violência doméstica exigem. Sensibilização e formação de pessoal docente nas escolas, CPCJs, profissionais de saúde e justiça, é um passo absolutamente essencial.
- E, acima de tudo, não desistir de proteger. Mesmo que o caminho seja lento o doloroso.
Se estás a viver algo semelhante, quero dizer-te: Não és exagerada. Nem conflituosa. Estás a lutar num cenário que, tantas vezes te pede o impossível.
Mas hoje, mesmo no meio das dúvidas, escolheste cuidar. Escolheste escutar a tua intuição, mesmo quando o sistema te pede silêncio. E isso, é um imenso gesto de coragem.
Estás a recuperar a tua voz. E essa voz é digna de confiança. Tu sabes. Sabes o que viveste. Sabes o que o teu filho ou filha precisa. Sabes o que é proteção.
Que nunca mais deixes que te convençam do contrário.
O silêncio nunca será solução, mesmo quando o sistema parece não escutar. A tua coragem hoje é também uma semente de proteção para o futuro dos teus filhos.
E não estás sozinha. Há quem esteja deste lado, para pensar, cuidar e resistir contigo.
Com carinho,
Rita Vicente
Psicóloga Clínica especialista em Intervenção com Crianças e Jovens

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