Tem apenas 2 anos. Chora incontrolavelmente sempre que a mãe se afasta. Recusa-se a ir ao colo de figuras masculinas, mesmo próximas. Passou a ter distúrbios de sono - terrores noturnos e despertares muito frequentes, acompanhado de choro e inquietação. Quando regressa dos contactos com o pai tem episódios de agitação e desregulação emocional, intercalados com apatia. A mãe relata os comportamentos, mas são lidos como "reações normais da idade" e "ansiedade de separação". O tribunal decide manter o regime de visitas, mesmo com um processo de violência doméstica a decorrer.
Treze anos. Há muito tempo que verbaliza o medo do pai, que até já lhe bateu e o insulta repetidamente. Não percebe porque a mãe o "obriga" a ir com ele. Não tem vontade de ir à escola. Tem episódios de ansiedade intensa, apresenta isolamento social e começa a autolesionar-se. Em tribunal decidem manter o regime de visitas - com pernoita e duas semanas de férias - e aguardar a evolução dos comportamentos do pai. Os profissionais alertam, mas os argumentos jurídicos sobre a "importância de manter o vínculo" e o "direito à parentalidade" prevalecem sobre o sofrimento do menor.
Infelizmente. estas histórias não são exceções. São o retrato de muitas infâncias onde o sofrimento emocional é desconsiderado ou reinterpretado, mesmo perante sinais clínicos claros. A dor da criança torna-se invisível, desacreditada aos olhos da justiça.
O que dizem os sinais?
O trauma infantil raramente se expressa de forma linear. Ao contrário do que muitos esperam, a criança exposta à violência nem sempre expressa o que sente. Em vez disso, o corpo e o comportamento contam essa história: através de regressões no desenvolvimento, alterações do sono, sintomas físicos sem causa médica, agressividade, isolamento ou medos inesperados.A evidência científica é clara: mesmo quando a criança não vive diretamente a agressão, estar num ambiente de tensão, medo ou controlo é altamente traumático. No entanto, em muitos contextos legais ainda se exige um "trauma evidente" ou "provas objetivas", desconsiderando o valor dos indicadores clínicos, especialmente quando observados por psicólogos em contexto terapêutico.
Esta distância entre o olhar clínico e a decisão legal, coloca a criança no centro de uma nova forma de violência: a institucional.
As consequências de uma infância não protegida
Ignorar os sinais de trauma não os faz desaparecer. Pelo contrário - os sintomas tendem a intensificar-se e a transformar-se, acompanhando a criança ao longo do seu desenvolvimento. A literatura aponta que a exposição contínua a contextos de violência e desproteção tem efeitos profundos:
- Aumento do risco de depressão e ansiedade na adolescência;
- Dificuldades na regulação emocional e no vínculo afetivo;
- Repetição de padrões abusivos em relações futuras;
- Autoimagem negativa e défice de autoestima.

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